presx na casa de banho
depois de tiros e espancamentos
no dia do escravo assalariado
depois da manif no dia do escravo assalariado
reprimida com balas reais e balas de borracha
tiros de caçadeira
tiros de caçadeira
perseguiçao pelas ruas da cidade
ateh perto do meu covil
prisoes
espancamentos
aplaudidos e justificados depois pelos media massas
cheguei ah nova casa
algo tensx
sem antes partilhar com o progenitor o sucedido
e receber a frieza costumeira
que nao esqueço
nova casa novo bules
tensao
ninguem com quem partilhar
como de costume
arrumar cenas
e, antes de ir dormir
ir ah casa de banho
estando a partilhar casa
naturalmente tranquei a porta
caguei
e ao sair,
e ao sair
a porta nao abre
insisto
a chave encravou
tento e volto a tentar
respiro fundo
tento manter a calma
experimento de diferentes maneiras
abrir a porta
a porta não abre
fico nisto para ai 10 minutos
a certa altura
por cerca de 5 segundos
sinto panico
apercebo-me
posso ficar presx dentro desta casa de banho durante dias
nao sei quando a pessoa do outro quarto volta
pode ser amanha de manha
mas pode ser daqui a dias
consciencializo-me disto
tenho que pedir ajuda
começo a bater na parede da casa de banho
a gritar por socorro
‘estou presx na casa de banho!’
apesar do instinto de sobrevivencia
apercebo-me do ridiculo disto
continuo a bater na parede, a gritar
oiço uma voz
eh uma voz brasileira
pergunta-me onde estou
berro o numero da porta e andar
berro para chamar os bombeiros
acede
acalmo-me
alguem ja me ouviu
dai a pouco batem na porta da frente
sao os vizinhos da frente
porque havia batido tambem na porta da casa de banho,
digo o que se passa
dizem que vao pedir ajuda
digo para ligarem ah senhoria, que tem a chave, eles conhecem-na
esperei cerca de uma hora, desde que comecei a berrar, ateh os bombeiros virem
foi rapido
os bombeiros chegaram
perguntaram-me, mais que uma vez, porque estava trancada na casa de banho (!)
respondi, mais que uma vez, que a fechadura encravara
a chave tava na porta, por dentro, a senhoria veio e nao conseguiu abri-la
tiveram que serrar a porta do sotao, que eh de metal
soh ouvia os pedaços de metal a cair no chao
lah entraram dentro de casa
arrombaram a porta da casa de banho
ao sair vejo 2 bombeiras boazonas com quem tinha falado enquanto encarcerado
tinham vozes sequesis a condizer
os vizinhos doutros andares todos a olhar no corredor de entrada
digo boa noite
e vou agradecer aos vizinhos
volto para dentro
vejo 2 bofias na sala de estar a olhar para mim como se fosse culpadx
e a senhoria
dirijo-me a e eles
a senhoria afasta-se
a senhoria afasta-se
ninguem me pergunta se estou bem
se preciso de alguma coisa
sou imediatamente confrontadx com burocracias
os bofias pedem-me a identificaçao
e dizem para assinar uma folha
pergunto o que eh
‘registo de ocorrencias’
depois a senhoria dirige-se-me
fazendo um grande esforço para parecer mais perturbada que eu
faz-se de vitima
ignoro-a
sai
fico de novo sozinhx
deito-me
e durmo descansadamente


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